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Ford, polarização e “capitalismo sem riscos”

“A desindustrialização brasileira é resultado das intervenções equivocadas que fizemos. E o pior é que o setor empresarial, as lideranças do setor privado, apoiaram isso. A culpa não é só do Estado.”

Marcos Lisboa[2]

No final do ano passado gravei um comentário para o Podcast do Espaço Democrático com o título de Guerra de narrativas[3]. Nele, focalizei o clima de polarização reinante no Brasil, em decorrência do qual pontos de vista sobre praticamente qualquer tema eram tratados de forma dogmática.

Ora, um dogma é, por definição, algo que não admite contestação. Nesse sentido, o debate de ideias, salutar e próprio de regimes democráticos, fica seriamente comprometido.

O ano de 2020 ficou para trás. Um novo ano se iniciou, mas o clima de polarização continua o mesmo, coisa que, diga-se de passagem, não se restringe só ao nosso país. No excelente livro Boa economia para tempos difíceis[4], Abhijit Banerjee e Esther Duflo, ganhadores do Prêmio Nobel de Economia em 2019, destacam esse mesmo aspecto reinante nos Estados Unidos afirmando:

Americanos de diferentes matizes políticos passaram a odiar intensamente uns aos outros. Em 1960, cerca de 5% dos republicanos e dos democratas diziam que se “sentiriam ‘contrariados’ se um filho ou filha se casasse com alguém do partido político rival”. Em 2010, quase 50% dos republicanos e 30% dos democratas diziam que se “sentiriam um tanto ou muito infelizes com a perspectiva de um casamento familiar interpartidário”. Em 1967, 33% dos democratas e dos republicanos achavam que um membro típico de seu próprio partido era inteligente, em comparação com 27% que tinham a mesma percepção sobre alguém do outro lado. Em 2008, esses números eram 62% e 14%! 

Exemplos dessa polarização no Brasil não faltam. A recém-anunciada desativação das fábricas da Ford em Camaçari (BA), Taubaté (SP) e Horizonte (CE) sinalizando para a saída da montadora do Brasil foi alvo de manifestações acaloradas de todo tipo, o que é uma das características da realidade atual, fortemente influenciada pelas redes sociais[5] e pelos palpiteiros de ocasião. 

O ex-ministro e ex-governador do Ceará, Ciro Gomes, antecipou-se ao episódio, afirmando tratar-se da continuidade do desmantelo iniciado no governo de Dilma Rousseff, não interrompido pelos governos posteriores. 

Outros, mais radicais, chegaram a propor que o Brasil deveria encampar todas as fábricas da Ford no País, transformando-as em cooperativas administradas pelos próprios funcionários, inspirado, de certa forma, no que fez Evo Morales com as refinarias brasileiras na Bolívia e com a mudança nas “regras do jogo” da distribuição da energia produzida em Itaipu promovida pelo governo do Paraguai. 

O presidente Bolsonaro, por sua vez, acusou a Ford de estar interessada apenas em manter subsídios históricos, decidindo pela saída do Brasil por não ter seu interesse atendido. 

O que me espanta nessa discussão – afora a superficialidade dos argumentos, seu tom acalorado e a inconsequência das propostas – é a falta de perspectiva histórica das análises externadas. 

Caso existisse um mínimo de perspectiva histórica, ficaria evidente que houve no caso da Ford – e de outras empresas de diversos segmentos da indústria – uma reação à sequência de vícios típicos de um país que optou por uma espécie de “capitalismo sem riscos”, expressão consagrada pelo jornalista José Nêumanne. Aliás, é bom salientar que essa expressão, em muitos momentos, soa muito bem em ouvidos interesseiros de governantes, empresários e trabalhadores, ávidos por reservas de mercado, isenções fiscais, quotas, subsídios e outros favores que nada têm a ver com a lógica da concorrência. 

Como bem observou Eduardo José Monteiro da Costa, professor da UFPA[6]

A pandemia, com sua repercussão econômica, apenas agravou ainda mais a situação delicada da empresa, que já operava com elevada ociosidade em suas plantas industriais. Some-se a isto a atual imposição mercadológica de uma ampla reformulação tecnológica que as empresas automobilísticas estão fazendo nos últimos anos, a um custo elevado. Isto tem obrigado não somente a Ford, mas as empresas automobilísticas de uma forma geral a reavaliarem as suas estratégias globais de produção. 

Capitalismo é isso. É o império da concorrência. 

Quem também enveredou por essa linha de análise foi José Márcio Camargo[7], professor da PUC-RJ, que destacou o desvirtuamento provocado pela extensão indefinida dos benefícios que tiveram origem na política de substituição de importações: 

A Ford cresceu no Brasil a partir das políticas de substituição de importações adotadas pelo governo brasileiro na década de 50 do século passado. Essas políticas foram baseadas numa forte proteção do mercado interno por meio de proibições de importações e elevados níveis de tarifas e subsídios. A ideia era que, como o mercado era pequeno, se comparado ao de países desenvolvidos, e a tecnologia apresentava elevados retornos de escala, ou seja, os custos unitários caíam rapidamente com o aumento da produção, para competir era fundamental reservar o mercado interno e subsidiar as empresas instaladas no País. Em teoria, seria uma proteção transitória, até que as empresas conseguissem adquirir um tamanho suficiente para se tornarem competitivas. [...] Entretanto, junto com o crescimento do setor veio o poder político, e com ele a proteção e os subsídios nunca acabaram. Com a proteção e os subsídios, a competição não veio, e, sem competição, o incentivo para investimentos em inovações tecnológicas e aumento da competitividade não aconteceu, tornando o setor tecnologicamente obsoleto. 

Os sucessivos adiamentos no encaminhamento de reformas estruturais contribuem também para que o País mantenha um péssimo ambiente de negócios, este sim um fator preponderante não só para decisões como a da Ford, mas também para que o nível de investimento no Brasil seja muito inferior ao observado em países que competem conosco na economia mundial. 

Como bem observa José Márcio Camargo: “A saída da Ford é um aviso de que é fundamental fazer as reformas e criar marcos regulatórios capazes de atrair investimentos privados, se quisermos efetivamente preservar nosso sistema produtivo. Sem elas, caminhamos para o retrocesso econômico”.




Luiz Alberto Machado Economista, graduado em Ciências Econômicas pela Universidade Mackenzie, mestre em Criatividade e Inovação pela Universidade Fernando Pessoa (Portugal), é sócio-diretor da empresa SAM - Souza Aranha Machado Consultoria e Produções Artísticas e diretor adjunto do Instituto Fernand Braudel de Economia Mundial. Foi presidente do Corecon-SP e do Cofecon.

[2] LISBOA, Marcos. Lições da saída da Ford do Brasil. Entrevista a Geraldo Samor e Pedro Arbex. Disponível em https://braziljournal.com/marcos-lisboa-licoes-da-saida-da-ford-do-brasil.

[3] Guerra de narrativas. Disponível em https://espacodemocratico.org.br/podcasts/guerra-de-narrativas/.

[4] BANERJEE, Abhijit V. e DUFLO, Esther. Boa economia para tempos difíceis. Tradução de Afonso Celso da Cunha Serra; revisão técnica de Norberto Montani Martins. Rio de Janeiro: Zahar, 2020.

[5] Abhijit Banerjee e Esther Duflo também se referiram a esse aspecto nos Estados Unidos, considerando: “O que explica essa polarização? Uma das mudanças mais importantes, desde o início da década de 1990, quando o partidarismo começou a se agravar de maneira mais acentuada, foi a expansão da internet e a explosão das mídias sociais”.

[6] COSTA, Eduardo José Monteiro da. A Ford está saindo do Brasil, de quem é a culpa? Disponível em http://www.souzaaranhamachado.com.br/2021/01/ford-esta-saindo-do-brasil/.

[7] CAMARGO, José Márcio. Ford: a caminho do retrocesso. Em O Estado de S. Paulo, 16 de janeiro de 2021, p. B 2.

 

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